terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Fecho de contas


      Este ano que agora se cumpre, encerra para mim com saldo positivo. E como todo o resultado tem de ser demonstrado, aqui segue o argumento (pensavam que era números, hã?!):

Fui feliz! Amei e fui amada!
Beijei, abracei, afaguei e consolei!
Chorei, sofri! Trabalhei, estudei!
Descobri coisas novas, realidades paralelas,
pessoas e afinidades, mundos novos, músicas, palavras.
Morri, renasci, reergui-me,construí-me de novo. 
Tive uma vida plena, cheia.
O caminho fez algumas bifurcações, encruzilhadas e cotovelos,
mas teve sempre uma luz a piscar, não lá no fundo ou no horizonte, mas dentro de mim!
Desejo que o próximo ano seja igual a este!!!

        E a provar que a vida é um eterno recomeço,  numa viagem que nos leva ao infinito de nós, ontem, quando estava à espera do autocarro,  voltei a ver um esquilo, a fazer tal qual como o outro que partiu. A natureza, deusa-mãe, mestre, envolve-nos sempre no seu regaço e insufla-nos o sopro de vida e de alento  para continuarmos sempre no caminho... 

domingo, 29 de dezembro de 2013

Torre de Marfim



Fechada em mim
olho-me por dentro
e por entre as pedras
encontro um raio de luz
que espreita e brinca
trazendo um sorriso no breu do meu peito.

Espero encontrar-te também...



sábado, 28 de dezembro de 2013

Ainda não me perdi...




Gastei uma hora pensando um verso que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro inquieto vivo.
Ele está cá dentro e não quer sair.
Mas a poesia deste momento inunda minha vida inteira.                                                                               Carlos Drummmond de Andrade



     Não se perdeu nenhuma coisa em mim.
Continuam as noites e os poentes
Que escorreram na casa e no jardim,
Continuam as vozes diferentes
Que intactas no meu ser estão suspensas.
Trago o terror e trago a claridade,
E através de todas as presenças
Caminho para a única unidade.

Sophia de Mello Breyner

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A metamorfose da monarca...



A casa dorme.

Em silêncio vagueio pelos corredores da alma.
Assalta-me a mente, os trabalhos e os dias
em epopeia árdua,  luto com as palavras que
brotam, nascem, queimam...
preciso soltá-las, libertá-las, fazê-las nascer
tomarem forma, deixá-las voar...
Escrever, agora, tornou-se urgente, necessário.
As ideias fervilham, impõem-se... não sei se a loucura me invade...

Sofro? não,
somente a espera foi longa, talvez não vá a tempo...
mas a possibilidade de ser, de criar está cá dentro... tardou a chegar?
Eu, talvez,  não tenha aberto a porta mais cedo.
Medo? sim de mim!

E as ausências...cada vez mais sinto-as,  com a carne...
Fazem-me falta os abraços, o olhar, o estarem presentes...
São já alguns os que me acompanham em espírito e, os outros...
aqui,  presentes-ausentes nesta fogueira que consome entranhas, sossegos e paz,
onde o perto por vezes é longe, e a solidão grassa num bando de gente,
não conseguem esquecer a falta.

Saudades...





terça-feira, 24 de dezembro de 2013

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Ipsis verbis / Ipsis litteris

Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,
mas não esqueço de que a minha vida é a maior empresa do mundo.
E que posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e
se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar
um oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um 'não'.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo...

(Fernando Pessoa)

domingo, 22 de dezembro de 2013

Boca



Gosto da boca, da boca que fala, 
que em biquinho se oferece, beija
da boca  que trinca, morde, lambe,
da boca que chupa, engole, come
da boca que ri, chora, grita, fere
da boca que grunhe, resmunga, blasfema, 
da boca que reza, canta, elogia 
da boca que respira, arfa, suspira
da boca que no fim se fecha e morre.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Metamorfose esdrúxula


Extravagante e esquisita mudança de forma de estrutura e de crescimento.
Diferente é o que fui, sou e serei.
No fim,  quero ostentar com orgulho as minhas asas,
esticá-las com convicção e certeza
de uma obra quase prima.

Príncipe

Era de noite quando eu bati à tua porta
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir 
e não me conheceste. 
Era de noite 
são mil e umas 
as noites em que bato à tua porta 
e tu vens abrir 
e não me reconheces 
porque eu jamais bato à tua porta. 
Contudo 
quando eu batia à tua porta 
e tu vieste abrir 
os teus olhos de repente 
viram-me 
pela primeira vez 
como sempre de cada vez é a primeira 
a derradeira 
instância do momento de eu surgir 
e tu veres-me. 
Era de noite quando eu bati à tua porta 
e tu vieste abrir 
e viste-me 
como um náufrago sussurrando qualquer coisa 
que ninguém compreendeu. 
Mas era de noite 
e por isso 
tu soubeste que era eu 
e vieste abrir-te 
na escuridão da tua casa. 
Ah era de noite 
e de súbito tudo era apenas 
lábios pálpebras intumescências 
cobrindo o corpo de flutuantes volteios 
de palpitações trémulas adejando pelo rosto. 
Beijava os teus olhos por dentro 
beijava os teus olhos pensados 
beijava-te pensando 
e estendia a mão sobre o meu pensamento 
corria para ti 
minha praia jamais alcançada 
impossibilidade desejada 
de apenas poder pensar-te. 

São mil e umas 
as noites em que não bato à tua porta 
e vens abrir-me

Ana Hatherly, in "Um Calculador de Improbabilidades"

Nunca um poema de outro me serviu tão bem. Parece-me um vestido feito à minha medida. 

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Espelhos de alma...


Moldei-me do barro com minhas próprias mãos, 
formei recantos, curvas, refegos e pregas que só eu sei, 
velados, recônditos, redutos de mim.
Podia ter-me feito perfeita, imaculada, bonita, 
mas fiz-me inteira, feliz e engraçadinha.
Tenho dias de sol e muitas noites com estrelas e lua cheia.
E sonhos.
Bons, maus e até pesadelos.
Mas,  o que tenho de melhor
são os benévolos olhos de quem me vê como sou
 e que me ama,  incondicionalmente...  

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Abraço



Estavas a dormir,
entrei pela janela do teu peito,
acoitei-me no canto ao lado do teu coração...
pulsava... afanosamente toava o compasso da vida,
definitivamente é aqui que quero estar.
Na muralha do teu corpo,
sinto-me donzela protegida.

Deixa-me ficar!
No calor do teu abraço...
Deixa-me ficar aqui!

Novelo

Eis como me sinto...
sem ponta por onde pegar,
amalgama de fios e nós...
esperando dedos de fada para me libertar... 

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Solidão



No desesperado cais de sempre, espero-te;
no horizonte, prenhe de futuro(!), vejo em tela funda cinescópio de vida.

O vento sopra... cheiro-te,
a tua presença insinua-se-me.

Os raios da aurora violácea dardejam, o mundo torna-se redondo!
No infinito, desenhos de luz fazem esquiços fugazes de felicidade,
a que se foi... a que passamos...

E tu? ... continuas ali, ao longe...
Não voltas, eu sei... sempre o soube, sempre...

... Com(n)tudo... continuo à tua espera!


domingo, 15 de dezembro de 2013

sábado, 14 de dezembro de 2013

Voar

Ontem soltei três pombas de mim ...
deixei-as voar no seu caminho, são jovens...lindas...
promessas de um futuro brilhante... promissor
o mundo as espera... foram as minhas meninas... 
mas irei sempre vê-las... 

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Ao meu amor...


Temos um tempo breve para amar
e todos os dias, à mesma hora,
é o deflagrar dos corpos à distância.


Queria que ficasses
naquele olhar
a caminho da curva 
do meu ombro.
Eduardo Pitta 

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Metáfora


        Escrevo para fora: 
 Costuro ideias e alinhavo metáforas.
      Corto Versos. Bordo babados.

       Rasgo sedas e verbos

sábado, 7 de dezembro de 2013

Red shoes


Peguei na tua mão... abracei-te...
tento sacudir as dores que te fustigam o peito,
a nuvem negra que paira sobre ti, que goteja...
Impotente não a consigo afastar...
Quero lutar contigo contra os tormentos que te roem,
pintar-te nos olhos raios de sol que te possam iluminar por dentro,
quero que calces os sapatos vermelhos e venhas comigo...
irei mostra-te o arco-íris e dizer-te que no final do caminho
há um mundo melhor, onde os espíritos são livres, voam e são felizes!
Quero construir-te uma estrada de tijolos amarelos,
onde a esperança emoldure o teu sorriso e a felicidade te abrace.
Quero levar-te ao meu castelo de sonhos,
onde tenho um jardim de rosas, de rosas de todas as cores, 
que desenho todas as noites quando fecho os olhos.
Faço borboletas, colibris e libelinhas que borrifo com o pó das estrelas, para brilharem.
Vem visitar-me todas as vezes que te sintas só.
Posso não ter palavras para te dar, mas ofereço-te sempre o meu coração e,
nos meus olhos poderás ver, sempre também, o meu amor.
Quero-te muito!

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Creio que o amor tem asas de ouro



Creio nos anjos que andam pelo mundo, 
Creio na deusa com olhos de diamantes, 
Creio em amores lunares com piano ao fundo, 
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes, 
Creio num engenho que falta mais fecundo 
De harmonizar as partes dissonantes, 
Creio que tudo é eterno num segundo, 
Creio num céu futuro que houve dantes, 

Creio nos deuses de um astral mais puro, 
Na flor humilde que se encosta ao muro, 
Creio na carne que enfeitiça o além, 

Creio no incrível, nas coisas assombrosas, 
Na ocupação do mundo pelas rosas, 
Creio que o amor tem asas de ouro. Amén. 


Natália Correia

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Mare meum


Esperavas-me. 
Demos as mãos.
 Levaste-me a ver o mar. Já te havia pedido...
 Ouvir as ondas e as gaivotas... 
Na espuma branca revolta os nossos sonhos. Ou,  pelo menos os meus... 
Ofereces-me uma pequena pedra que apanharas na areia. 
Tem a forma de um coração. 
É linda! Guardo-a carinhosamente... 
A brisa envolve-nos e acaricia-nos num êxtase pleno e fecundo em sintonia com o universo.
Inspiro o prana marinho com uma saudade antiga, de outrora...
Caminhamos, o mar lambe-nos os pés com doçura...são beijos dados com pepitas de sal.
A maresia salpica-nos a pele. De repente, um marulhar agitado. A minha cauda teima em não sair da água...
Sinto-me em casa...

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Stella


Sigo-te o rasto... presa à cauda da tua estrela...
o teu brilho não me ofusca, pelo contrário...
irradia-me... ilumina-me...
cintilo como um  raio de luz pequenino que te espera...
deito-me no teu regaço, sorvo a força que generosamente me dás...  
perco-me! 
É necessário ter o caos cá dentro para gerar uma estrela.
-- Friedrich Nietzsche



sábado, 30 de novembro de 2013

Espero












Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.

              Sophia de Mello Breyner

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Ausência


No vazio de mim, na noite, procurei-te...
tacteei as sombras e não te senti, perdi-me...
deixaste-me? fugiste-me?
Insisto... procuro-te. Passo os dedos pelas formas, as nossas...
apareces-me em luz recortada num feixe fugaz. Tento alcançar-te...
esquivas-te? foges-me?
Salto. Tento acompanhar-te, mas ... escapas-te.
Na ânsia de ver-te, procuro-te nas minhas fantasias, nas telas que pintei contigo, 
guardo-as na cave escura das memórias, das nossas...
Colo a tua imagem nos meus olhos,
só eu te poderei ver, só eu poderei ter-te... porque és meu e eu...
quero-te só para mim! 

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Poema de Eduardo Pitta




Adivinhamos inquietos os olhos
e o poema dos dois corpos.
A nossa vida tem sido um passar
sem pedir licença.
Um dia e outro dia depois,
como quem adestra relâmpagos.
Eduardo Pitta
Uma surpresa, gostei muito!

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Opalus


Quero fazer ninho no teu peito vazio, deitar-te no meu colo e afagar-te,
soprar-te ao ouvido canções de embalar, mimar-te o mais que possa, 
como se me morresses nos braços e fosse eu o teu único amparo
beijar-te!
morder-te! remorder-te!
tocar-te!
sentir no teu corpo quente em brasa,  o rio que me percorre, 
sedento de uma foz onde desague, se espraie e se funda, 
esvaíndo-se em êxtases de arco-íris
abraçar-te!
açambarcar-te!
cingir-te a mim!
 fundir-me em ti!
mergulhar nos teus olhos de água, cristalinos, opalas iridescentes...
voar do teu peito em queda livre para o abismo,
 que nos suga,
que nos acorrenta 
à condição de não-ser,
e a percorrer o caminho
como eternos errantes do cosmos...


domingo, 24 de novembro de 2013

Outono boreal


Quero apenas cinco coisas..
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser... sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.

Pablo Neruda


quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Igneum


Fogo que queima e arde a carne que se come, a carne que se afaga,
a carne que morre.

Fogo que é calor, brasa, fátuo fogo que ilumina, incendeia, mata
fogo d'ouro mortal,  oferecido,  prometeu sabedoria ao deus-homem.

Fogo que arde e consome, desejo que agiganta em pira de ganância,
 verdade que acorrenta,  fogo divino que atormenta,
 que nos lambe e crepita, estremece e tremelica,
numa  pequena chama:  ígnea-alma.

Ângulo (s)



"Aonde irei neste sem-fim perdido,
Neste mar oco de certezas mortas? -
(...)
- Por sobre o que Eu não sou há grandes pontes
Que um outro, só metade, quer passar
Em miragens de falsos horizontes -
Um Outro que eu não posso acorrentar... "

Mário de Sá Carneiro

domingo, 17 de novembro de 2013

Devaneios


Como não possuo e não me encontro
e nem sou um,  nem o outro,  ou intermédio
tenho em mim todos os sonhos do mundo e,  nada serei...
minha alma d' oiro, a mona,  agora fuma e bebe e traça a perna
em sobolos rios vão, Maria fui ... Marta talvez
porque,  aqui e agora,  quem manda sou eu.

E quanto mais me escondo mais me avisto, 
os meus olhos são meninos que na estrada andam perdidos: 
a ausência é um estar em mimalma e sangue e vida
mas,  muito senhora da minha vontade.
  
A minha tristeza é sossego, é  corpo, 
corpo encontrando o corpo e por ele navegando 
nestas mãos nocturnas onde aperto os meus dias quebrados na cintura.

É quando o amor morre de amor, divino.
Quantas vezes morremos um no outro.
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Não se perdeu nenhuma coisa em mim, continuam as noites e os poentes
O que há em mim é sobretudo cansaço...

Valeu a pena? Tudo vale a pena...
Mas não sei para onde vou...




 

sábado, 16 de novembro de 2013

Vitrúvio


Prometeu que vinha ...
Agigantou-se na noite fria e profunda ...
Guardou o fogo e ... 
Não o encontrei ...
Em vitrúvia cama ficou ...

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Ponto de Fuga


O Tempo urge e corre!

- Ao longe uma imagem de mim vagueia inerte no plano.
Estraçalha farripas de sangue que escorrem 
em lágrimas rasgando a carne quente.

Fugaz labareda que lambe!
Gotas de água que brotam da  fenda profunda no abismo, 
que lavra e sulca gretas de dor.

O espaço rasga e fere!
O silêncio mata! Jaz!

A morte obscena levanta o véu.
Diáfana encruzilhada - devir eloquente, profano, amigo 
- portal espectro de sombra negra que oculta.

- Contra o Tempo!

Imerge a alma. Esquiço fugaz de esperança.
A imanência do ser jorra, nasce e imerge em pranto...

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Diamante


Pedra preciosa, tão pura e cristalina, que em bruto se esconde a conhecer ao mundo para 
 em mil reflexos de luz iluminar quem ousa olhar.
Lapidá-la é mestria de sábio.

Mortal



Ás vezes gostava de ser
do tamanho do mundo
com um coração prenhe de dar,
de aconchegar no meu peito
a dor que trespassa e fere.

Ás vezes gostava de me fazer vento
e soprar na brisa 
o alívio de ser, soltando
o cabelo como raios de luz cintilantes.

Por vezes, recolho-me 
na imensidão de mim e perco-me, 
fugindo em cada recanto retorcido
e estreito, onde
por vezes é difícil ficar lá...

Choro, rio, sofro e amo, sou afinal
 mortal ...  

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Ser mãe



Faz anos hoje que fui mãe pela primeira vez.
Um momento único, esperado e bem-vindo. Uma menina... perfeita e linda.
Foi primeira em tudo: filha, neta, bisneta, sobrinha.
Sofia. 
A sua luz ilumina-nos e abençoa-nos todos os dias.
Foi o primeiro dia do resto da minha vida...

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Camminus


Sentou-se ao meu lado e deu-me a mão.
Não a esperava, apareceu-me de rompante e instalou-se. 
Senti-lhe o calor das mãos. Abraçou-me. Sentia-a tão próxima a mim.
Com os olhos fechados via-a olhar-me no fundo de mim.
Era transparente.
 O espectro da minha luz  crepitava bruxuleante em tons de oiro e fogo,  queimando a chama da vida que habita em mim. 
Ela afaga-me o rosto e afasta -me os cabelos e em cada bochecha repinica um beijo (faz-me lembrar a minha avó) e, acto contínuo,  dá-me uma palmada no rabo.
 - Então? - Olhei-a de frente... 
- Era para te espevitar! Acorda... Mexe-te... - Diz-me ela.
- Preciso de ti, do teu ombro! Preciso do teu colo. Sabes, ás vezes o caminho parece sinuoso e escuro, com alguns perigos à espreita. Não sei se consigo chegar... 
- Aonde?
- Ao arco íris. Sabes é lá a nossa casa. A casa de onde parti faz muito. Apanhei uma estrela e fui ver o que havia do outro lado. Perdi-me algumas vezes, outras fiquei à espera, outras ainda construí castelos e ainda outras cheguei a encruzilhadas mas,  tudo foi um caminho para chegar aqui.
- Estás cansada?
- Um pouco. Gostei que tivesses vindo. Pensei-te zangada pela tropelias que te faço...  Às vezes quero esquecer-me de ti. O teu olhar penetra-me e perscuta o meu íntimo tão profundamente que me incomodas...
- Vês-me a espreitar-te?
- Sim vejo-te no espelho e quase sempre não me vejo.
- Porque será? És tu ou sou eu?
- Sou mim...

domingo, 10 de novembro de 2013

Seria... (para um amigo)


Na concha do teu colo encosto o meu ouvido e 
ouço o teu pulsar: tum, tum,tum, tum  e 
ao fundo o mar.
Afago os teus cabelos e 
os meus dedos deslizam nas ondas suaves com ternura.
Agarro-me a eles para não cair no abismo que o meu ser carrega.
Embalas-me...
 lembras-me canções há muito esquecidas.
O teu perfume inebria-me- a maresia instala-se e 
percorre cada pedaço de mim, cada grão de areia que rola no teu olhar.
Aconchego-me mais, 
apertas-me de encontro a ti e 
sinto-te firme como uma pequena rocha onde eu me ancoro...
e se me deixares... para sempre.
Sinto-me grande, como Odisseu! 
Eis a sereia que tomei para mim. 
A que quis olhar e sentir! 
Ousarei ouvir-te se quiseres, sem medos , sem artifícios.
 Resgatarei com pulso a minha condição: 
amar-te até à eternidade e sempre,
 sempre que estas linhas sejam lidas... 

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

R.I.P. (in memoriam)



Vivo em Lisboa. 
Num bairro no cimo de uma colina  sobranceira ao Tejo que avisto, tem, por paredes meias com Monsanto e pelas muitas árvores que proliferam tanto pelas ruas como pelos jardins das casas apalaçadas e palacetes que por aqui existem, uma fauna rica e por vezes inusitada que vagueia por elas. 
Bairro habitado por pessoas de várias idades, e devido à abundância de escolas na zona, um tráfego intenso de crianças,  adolescentes e universitários a caminho. 
Fora os dias de semana e do horário escolar, o bairro é pacato e calmo parecendo uma pequena aldeia onde todos mais ou menos se conhecem e o espírito de entre ajuda, de cuidado, da cusquice, da maldicência,  da vontade de chatear porque sim, impera.
 Por vezes, sentados na esplanada do café vemos passar aos gritos característicos um bando de periquitos/papagaios que esvoaçam alegremente entre as árvores da escola e as do jardim. Co-habitação estranha nestas paragens, mas já devidamente referenciada. 
Os esquilos também passeiam pelos troncos das árvores e, de árvore em árvore, por vezes com saltos entre elas, andam em busca de melhores frutos pela vasta superfície arbórea existente. 
Na paragem do autocarro, muitas vezes, e sobretudo de manhã avistava-mos um pequeno esquilo que fortuitamente assomava-se ao cimo do muro do extinto hospital, e procurando o melhor ângulo de ataque ao caminho por ele imaginado, subia ao tronco da árvore mais próxima e descendo-o afoitava-se a atravessar a estrada a caminho do outro tronco da árvore fronteira para prosseguir na sua demanda matinal.
 Era sempre uma benção e um regalo para todos quantos,  na espera fastidiosa dos transportes e no enlevo das preocupações e problemas de cada um, a visão daquele pequeno ser nervoso, atiradiço, corajoso de medo, sobrevivente numa selva urbana, vislumbrava-mos a sua aparição fugaz num momento mágico. 
Era a figuração ao vivo e a cores da feroz luta da sobrevivência travada por um pequeno ser, 
 tão frágil  a nossos olhos. 
Podíamos dar largas à imaginação e inventar-lhe uma história, um passado, uma família, pedaços de quotidiano que gostamos de imprimir aos outros sejam eles reais ou inventados, animais ou outros. 
Eu, 
gostava de o saber feliz, por entre as árvores frondosas cheias de bagas suculentas, envoltas num manto de bruma matinal que propícia a aparição de fadas e seres etéreos que habitam a floresta, com os filhotes numa toca confortável e seca,  a crescerem para perpetuarem a espécie e dar continuidade à roda da vida do planeta.
A comunhão que partilhava com a natureza causava-me cobiça.
 Deleitava-me saber da sua afinidade com a terra, com as árvores, com o ar, com o Sol.
 Da simbiose perfeita do ser com o espaço e o tempo, tão perfeita que não tem consciência nem vontade, limitava-se ser.
Hoje lá apareceu de novo.
 Na sua maneira de ser, nervoso e fugaz.
Do muro saltou para o tronco, do tronco para o chão e atravessou ...  
A sua pequena luz acendeu-se no plasma cósmico. 
 Jaz seu pequeno corpo na berma do passeio, debaixo de um carro onde se acoitou após o impacto que o colheu. 
 João de Barros era a rua... 

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

(Re) Nascimento


Alexandra

Antes de ti, já o Tempo te esperava,
Leve, paciente e ansioso.
Expressão viva de alegria, 
Xaile e manta em frio de quem sente,
Avenida hospitaleira de quem se perde e está só.
Na vida fria, és calor e abraço
Dado em conforto brilhante e aceso.
Rosa furiosa e intensa de beleza una,
A vida, de ti, espera sempre o MELHOR!
(Manuel Vieira) 

Uma oferta muito querida do meu grande amigo Manel! Os seus olhos são deveras benevolentes!

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

No início era a luz...



No princípio era a energia. A energia que nos faz, nos molda, nos preenche.
Somos feitos à semelhança de um poder criador que tudo abarca e tudo é. 
Quântica.
Pedaços de energia em profunda mutação, que se transformam e se recriam numa viagem intemporal e infinita pelo espaço da criação em busca do início primordial da luz.
Por vezes o percurso é sinuoso e sofrido. Por vezes esquecido. A centelha criadora jaz efémera, titubeante no seu crepitar, ténue, sumida na sua força. Não se apaga nunca, hiberna.
Espera.
Pacientemente até que algo a desperte da letargia e a ouça, olhe, crie e renasça o poder criador que sempre esteve lá, a força.
E do caos se faz logos, da desordem dos sentimentos reconstrói-se o corpo e a alma na sua forma mais pura, aberta, disponível para a sabedoria, grande. Equiparada à mãe, numa fusão de semelhança, de verosímil, de verdade primordial, onde tudo é e será, é e foi. 
Ser...

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

D' existir


Apetece-me  largar tudo. 
Desistir de existir aqui.
Mas sei que não devo nem posso fazê-lo... 

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Almas Gêmeas


Procuraste-me.
Senti os teus dedos tocarem-me. Tremi. Um frémito percorreu o meu corpo, como uma corda de um instrumento musical. Beijei-te as mãos. São belas. Grandes. Fortes. Fazem-me sentir segura.
 O teu corpo oferece um porto de abrigo, que me envolve e aconchega. Amarro o meu corpo ao teu. 
Numa cadência de ondas suaves somos o universo, o caos e o cosmos, o fim e o princípio, a morte e a vida. Explodimos super nova. Ao redor o silêncio, a paz, a magnitude da criação.
O tempo parou. Uma suave brisa quente murmura nos nossos ouvidos. 
O tempo primordial nos envolve.Estamos onde partíramos.  
Completamo-nos.
Vejo-me nos teus olhos.  Só assim me (re)vejo de facto. No teu espelho gosto do que olho.
Os teus olhos filtram-me, apuram-me, veneram-me.Não me vejo assim... Mas ao ver-me através de ti parece tudo fazer sentido.  Como se fossemos apenas um e eu perfeita.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Angelus



Ao de leve o teu bater de asas fez soprar uma leve brisa de ar envolvente que me acordou.
Abri os olhos e vi-te pousar a asa por cima de mim protegendo-me.
Gostei de sentir a leveza da penugem na minha pele, fizeste-me cócegas.
Senti o afago e o carinho que me dedicas, a comunhão.
Entreguei-te as dores, as queixas, os sonhos e a minha loucura. 
Senti-me leve, solta, pluma, pena e, de repente, voei...  
Voei voltas e reviravoltas, num turbilhão de piruetas e voos picados nas tuas asas.
 Não precisamos falar. 
Comungamos a transcendência e a leveza de ser. Experiências profundas nos unem  num espaço e num tempo, que sabemos, serem nossos.
Como se o tempo e o espaço fossem um só e nós um todo. 
Pousaste-me suavemente de regresso e vi-te sorrir com o peito cheio e as asas de anjo ergueram-te no firmamento. 
Sinto que vais voltar...

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Cyclamen



Solidão.
Hoje sinto-me só. Um nó na garganta instalou-se. Os olhos facilmente escondem-se em águas profundas e turvas que escurecem o olhar.
Não quero chorar.
Olho em volta, procuro o sol...
Apetece-me sentar. Abraçar as pernas em novelo e aconchegar-me em mim, como se tentasse agarrar-me por inteiro, sem deixar de fora qualquer pedaço meu. Tento acomodar-me.
Fecho-me. Tranco-me por dentro. 
Casulo. Concha. Toca. Abrigo. Mantra. Fé.
Hoje sou só eu e só.
Hoje não entra ninguém...



terça-feira, 15 de outubro de 2013

D' Alma


Hoje atropelei-a.
 Andava a chatear-me. De manhã vi-a a espreitar ao espelho. Lá vinha ela com os seus cabelos ondulados em desalinho. Triunfal.  
Ignorei-a. Voltou a escolher-me a roupa. Deixei.
 Por vezes deixo-a tomar conta de mim, ás vezes mima-me. Diz-me exactamente o que quero ouvir. 
Sabe tão bem! 
Outras vezes irrita-me solenemente.
 Odeio-a!  
Odeio! Odeio!
Quem pensa ela que é!
 Por vezes dou com ela sentada a olhar para mim e a rir-se com aquele sorriso malandro do tipo estou a ver-te, sei o que estás a pensar. 
Mando-a embora mas volta sempre. 
Quando menos espero lá está ela a espreitar-me.
 Mas hoje atropelei-a. 
Vinha a correr para entrar no escritório e de repente voltei-me... sem dar conta esbarrou em mim. 
Caiu.
 Olhei-a sem remorso e sem pena. Deixei-a ficar ali.  
Só tive de compor o meu vestido, que por sinal até me fica bem e foi ela que escolheu.
 Durante uns dias andará zangada...

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Dandy


Surgia sempre envolto nas suas roupas cinzentas e largas. Gesticulava com veemência e defendia as ideias com firmeza. Havia temas predilectos, dos quais, fosse em que contexto fosse, sempre vinham à baila com a vivacidade que a revolta lhe trazia: a condição feminina, a escravatura, o trabalho infantil, entre outros.
 E dissertava, repetindo-se uma e outra e mais outra vez. A viagem pelo século fazia-se por caminhos variados, com desvios profundos a outras eras. 
As pinturas eram mostradas como estandartes de mudança numa civilização que teimava romper as grilhetas do passado sombrio, fechado e obscuro. 
A origem do mundo resplandecia com toda a verdade à frente dos nossos olhos.
 À primeira vez, de uma forma contida e recatada, à segunda de rompante como que se fosse aquela a sua emancipação.
 De facto houvera mudanças. As roupas, agora mais justas e de cores mais claras, confiava-lhe uma jovialidade agora retomada. 
Algo mudara em sua vida.
 Parecia mais solto, mais leve, talvez até menos taciturno. Pedia desculpa pelas repetições, mas... os temas que lhe eram favoritos, esses eram incontornáveis. 
Mas não fora só isso.
 Algo o tinha denunciado muito antes. 
Terá sido um beijo trocado inocentemente na esplanada....

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Margarida Vale de Gato


ÉMULOS

Foi como amor aquilo que fizemos
ou tacto tácito? – os dois carentes
e sem manhã sujeitos ao presente;
foi logro aceite quando nos fodemos
Foi circo ou cerco, gesto ou estilo
o acto de abraçarmos? foi candura
o termos juntos sexo com ternura
num clima de aparato e de sigilo.
Se virmos bem ninguém foi iludido
de que era a coisa em si – só o placebo
com algum excesso que acelera a líbido.

E eu, palavrosa, injusta desconcebo
o zelo de que nada fosse dito
e quanto quis tocar em estado líquido.
in Mulher ao Mar,  Mariposa Azual, 2010
Uma experiência fantástica e inédita. Adorei!

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Dádiva divina


Dar...
Ser...
Doar...
Oferecer...
Sentir...
Ficar...
Sonhar...
Amar...
e Partir!

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Ainda a propósito da idade




Nasci noutro tempo, não do tempo da outra senhora que o era, mas num tempo onde os valores sociais tinham outra dimensão. Ás meninas convinha uma educação feminina, esmerada e prendada.
Tínhamos de aprender a sentar, a andar, a comportar-mo-nos com educação, a saber vestir-mo-nos de acordo com a ocasião e a linguagem devia ser correcta e agradecida.
O pudor era exercido sob a forma de repressão. Não era bonito mostrar ou descobri-lo. Havia que escondê-lo e tudo o que se relacionasse com sexo era velado e oprimido. Vislumbrar um corpo nu, só se fosse de um bebé ou criança pequena. A célebre frase "já és uma mulher" quando do primeiro período é um clássico de um ritual de passagem a uma fase adulta, para a qual não fazíamos a mínima ideia do que era.
Também sou daquelas que saí de casa do meu pai para a casa do marido, também minha em partes iguais, embora na altura com um esforço maior da parte dele.
 A famosa emancipação, para mim, foi nessa altura.
 Passar a ser dona do meu nariz, ter uma vida autónoma, ser corpo e sangue e viver todas as horas com o meu amor, era a maior conquista. A árvore tenra que já se aguentava sózinha no seu caule delgado, apesar de eu achar enorme. 
A árvore frutificou e cresceu profícua na sua função: engrossou o tronco, cresceu a copa...
As marcas do tempo estão  patentes no tronco desta árvore da vida, como registo das anos que passaram, com veios e sulcos, nós e cicatrizes de tempestades agrestes, que já lá vão e que servem agora de escudo a outras que surgirão no futuro.
 Contudo, há uma pequena marca, singular e brilhante que se destaca no tronco: 
um coração com as letras R e X.

   

Hoje o que eu não dava por um café...



Hoje precisava mesmo de um café. Mas não o bebi... Os deuses estavam literalmente contra. No Olimpo Zeus decidiu que eu anax não devia tomar café e puniu-me. Enviou seu relâmpago fulminante e intercedeu na minha vontade. Raios! Reclamei com o pobre guardião: ou me dá o café ou o dinheiro - desculpe isto não é um assalto. 
Eu só queria um café...Vejamos se amanhã Zeus estará mais manso. 
Prometo que se não beber café amanhã, vou chamar os meus irmãos...