sexta-feira, 15 de junho de 2018

De tarde



Nêsperas e laranjas caem dos ramos prenhes
e  a maresia invade as narinas saudosas do sal,
bordadas,  no ainda pungente verde,  rubras papoilas
com salpicos de brancos sanganhos e madressilvas entre cardos.
Ao vento abrem-se asas de andorinhas e o canto das gaivotas
exalam perfumes doces de magnólias e acácias em flor. 

(fixam-se sorrisos nos rostos felizes
interpretando pedras desconhecidas num mapa desdobrado
na pausa duma mesa com um copo de vinho à saúde da vida
e à alegria que patrocina… prendem-se memórias para lembrar)

Estendo os olhos e deito-os no mar azul-céu.

O sol amorosamente beija o mar que sem pudor sorve-lhe a vida …
nele morre e ressuscita
não sem antes oferecer-lhe um crepúsculo de rosáceas
e os olhos deitados acompanham as ondas
e vão longe a acompanhar o barco
que teima transpor o horizonte a caminho do oriente…


Vestiram-se de purpura os passeios da cidade
e ainda tanto para ler...


segunda-feira, 28 de maio de 2018

Paúis



Entre a certeza do passado e a possibilidade do amanhã
vai um estio bravo de gretas fundas e gritos mudos
na surdina dos dias que, parece não ter fim
tangida no eco que se faz presente ainda,
jazendo nas entranhas da carne que já roeu até ao osso
e que tremeluz em fogo-fátuo,  rebuscado em má memória

São pedras recolhidas na saca urdida de nós vivos
entrelaçados de esperança e brilho aos olhos pios,
acreditados em meio século de vida
nos bem-aventurados e escolhidos trilhos que,
agora, se bifurcam em dentes arrevesados
apontando arco-íris nos paúis que roçam o horizonte finito,
a exigirem ladrilhar o caminho...




quarta-feira, 11 de abril de 2018

Choupal



Todos os dias te entrego em desalinho
o corpo de olhos fechados
galgando açudes, planaltos, margens,
paisagem escura ao peito
entre raízes, troncos e copas caducas
à procura de âncora na luz do teu sorriso 
no calor dos teus braços 
que me sustêm e prendem ao leito para
por fim confiares-me ao mar, meu destino.