sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Ainda a propósito da idade




Nasci noutro tempo, não do tempo da outra senhora que o era, mas num tempo onde os valores sociais tinham outra dimensão. Ás meninas convinha uma educação feminina, esmerada e prendada.
Tínhamos de aprender a sentar, a andar, a comportar-mo-nos com educação, a saber vestir-mo-nos de acordo com a ocasião e a linguagem devia ser correcta e agradecida.
O pudor era exercido sob a forma de repressão. Não era bonito mostrar ou descobri-lo. Havia que escondê-lo e tudo o que se relacionasse com sexo era velado e oprimido. Vislumbrar um corpo nu, só se fosse de um bebé ou criança pequena. A célebre frase "já és uma mulher" quando do primeiro período é um clássico de um ritual de passagem a uma fase adulta, para a qual não fazíamos a mínima ideia do que era.
Também sou daquelas que saí de casa do meu pai para a casa do marido, também minha em partes iguais, embora na altura com um esforço maior da parte dele.
 A famosa emancipação, para mim, foi nessa altura.
 Passar a ser dona do meu nariz, ter uma vida autónoma, ser corpo e sangue e viver todas as horas com o meu amor, era a maior conquista. A árvore tenra que já se aguentava sózinha no seu caule delgado, apesar de eu achar enorme. 
A árvore frutificou e cresceu profícua na sua função: engrossou o tronco, cresceu a copa...
As marcas do tempo estão  patentes no tronco desta árvore da vida, como registo das anos que passaram, com veios e sulcos, nós e cicatrizes de tempestades agrestes, que já lá vão e que servem agora de escudo a outras que surgirão no futuro.
 Contudo, há uma pequena marca, singular e brilhante que se destaca no tronco: 
um coração com as letras R e X.