sexta-feira, 8 de novembro de 2013

R.I.P. (in memoriam)



Vivo em Lisboa. 
Num bairro no cimo de uma colina  sobranceira ao Tejo que avisto, tem, por paredes meias com Monsanto e pelas muitas árvores que proliferam tanto pelas ruas como pelos jardins das casas apalaçadas e palacetes que por aqui existem, uma fauna rica e por vezes inusitada que vagueia por elas. 
Bairro habitado por pessoas de várias idades, e devido à abundância de escolas na zona, um tráfego intenso de crianças,  adolescentes e universitários a caminho. 
Fora os dias de semana e do horário escolar, o bairro é pacato e calmo parecendo uma pequena aldeia onde todos mais ou menos se conhecem e o espírito de entre ajuda, de cuidado, da cusquice, da maldicência,  da vontade de chatear porque sim, impera.
 Por vezes, sentados na esplanada do café vemos passar aos gritos característicos um bando de periquitos/papagaios que esvoaçam alegremente entre as árvores da escola e as do jardim. Co-habitação estranha nestas paragens, mas já devidamente referenciada. 
Os esquilos também passeiam pelos troncos das árvores e, de árvore em árvore, por vezes com saltos entre elas, andam em busca de melhores frutos pela vasta superfície arbórea existente. 
Na paragem do autocarro, muitas vezes, e sobretudo de manhã avistava-mos um pequeno esquilo que fortuitamente assomava-se ao cimo do muro do extinto hospital, e procurando o melhor ângulo de ataque ao caminho por ele imaginado, subia ao tronco da árvore mais próxima e descendo-o afoitava-se a atravessar a estrada a caminho do outro tronco da árvore fronteira para prosseguir na sua demanda matinal.
 Era sempre uma benção e um regalo para todos quantos,  na espera fastidiosa dos transportes e no enlevo das preocupações e problemas de cada um, a visão daquele pequeno ser nervoso, atiradiço, corajoso de medo, sobrevivente numa selva urbana, vislumbrava-mos a sua aparição fugaz num momento mágico. 
Era a figuração ao vivo e a cores da feroz luta da sobrevivência travada por um pequeno ser, 
 tão frágil  a nossos olhos. 
Podíamos dar largas à imaginação e inventar-lhe uma história, um passado, uma família, pedaços de quotidiano que gostamos de imprimir aos outros sejam eles reais ou inventados, animais ou outros. 
Eu, 
gostava de o saber feliz, por entre as árvores frondosas cheias de bagas suculentas, envoltas num manto de bruma matinal que propícia a aparição de fadas e seres etéreos que habitam a floresta, com os filhotes numa toca confortável e seca,  a crescerem para perpetuarem a espécie e dar continuidade à roda da vida do planeta.
A comunhão que partilhava com a natureza causava-me cobiça.
 Deleitava-me saber da sua afinidade com a terra, com as árvores, com o ar, com o Sol.
 Da simbiose perfeita do ser com o espaço e o tempo, tão perfeita que não tem consciência nem vontade, limitava-se ser.
Hoje lá apareceu de novo.
 Na sua maneira de ser, nervoso e fugaz.
Do muro saltou para o tronco, do tronco para o chão e atravessou ...  
A sua pequena luz acendeu-se no plasma cósmico. 
 Jaz seu pequeno corpo na berma do passeio, debaixo de um carro onde se acoitou após o impacto que o colheu. 
 João de Barros era a rua...