quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Cama


A propósito de um texto que andamos a ler e nesse contexto, esta cama seria a cama-barco. Decerto nos embalaria na corrente da água revolta, em busca de uma ilha onde aportar e descansar da viagem que fizéramos. Esta era mais sofisticada que a cama-jangada do Pacheco e com menos tripulação, não seríamos cinco mas somente um. Eu e quanto muito mais outro, para sermos um (a equação de Almada).
Seria eu e o Orpheu, em seus braços descansando os olhos e o corpo, num sono encantado, justo e reparador, ou eu e Neptuno, cavalgando na espuma das ondas agarrada ao seu tridente, com os cabelos soltos ao vento,ou ainda eu e Apolo entoando belas poesias de encantar numa melodia inventada, ou eu e Cupido rindo e dando beijos, exalando amor. Poderia ser... Mas também podia ser a cama-casulo, a cama-ninho, a cama-rochedo, a cama-abrigo, a cama-ilha (esta não me saiu bem parece uma toalha para uma mesa redonda), enfim poderia ser simplesmente cama, se é que se pode ser só uma cama (pense-se na cama de Platão e aquilo é complicado, não a cama mas o pensamento ou a ideia ou a imagem que ele tem dela -  talvez a dele não fosse confortável e lhe trouxesse uma carrada de insónias e volta para cá, volta para lá, congeminasse teorias platónicas,  como as paixões que não dão em nada, enfim, não sei).
 A minha cama é simples, quente, confortável, aconchegante, envolvente e caridosa: recebe-me sempre de braços abertos, afaga-me os cansaços e embala-me os sonhos, que me levam a outras dimensões, estrelas  e quimeras que trago nos olhos ao acordar. 
São sete horas, levanta-te - diz-me Adónis carinhosamente. 
Todas as noites dorme comigo.