segunda-feira, 17 de março de 2014

À espera...I

Todos os dias, sempre à mesma hora, vejo-o na paragem de autocarro à espera.
Espera a companheira com os olhos postos no lugar de onde ela virá ao seu encontro.
Sei que a espera, pois muitas vezes, quando passo um pouco mais tarde, vejo-os aos dois:  
apanham o meu autocarro.  De regresso a casa, parece.
 Ela certamente virá do trabalho... 
quase sempre vem de semblante carregado, o rosto fechado, enigmático, onde, parece-me, carrega uma indiferença para com ele. Talvez cansaço...
 Ele abnegadamente segue atrás dela, 
como que a protegê-la das agruras da vida que até aquela hora lhe escapa, 
mas, daquela em diante, ele controla. 
Parece desamor do lado dela e entrega incondicional da parte dele.
Será?
 Existe uma grande diferença de idades entre eles.
 Ele afigura-se pessoa dos seus sessenta e muitos, talvez até setenta, 
ela ragariga nos seus quarenta e poucos, bem nutrida de carnes. 
Ele cavalheiro à moda antiga, um pouco pintas, 
de pochette  e óculos escuros, um pouco marialva,
típico português, de outros tempos. 
Ela seduziu-o na sua frescura nova, rosto ladino e formas voluptuosas,
ele a conquistou no charme de homem vivido, mais velho e nas suas maneiras.
Será? 
 Todos os dias, de segunda a sexta, à mesma hora,  a espera,  para fazerem aquele percurso os dois,
 a par de um outro, a vida que partilham, provavelmente, já a algum tempo.
 Não se beijam,  pelo menos ainda não vi, 
mas ele carrega-lhe os sacos e, talvez, a dor de um dia já não o poder fazer
e de já não poder esperar por ela... amorosamente.
Ela, já não irá ao seu encontro, não terá alguém à sua espera e  
certamente não terá com quem partilhar o peso da rotina que, parece, a consome.
Será?