sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Angelus



Ao de leve o teu bater de asas fez soprar uma leve brisa de ar envolvente que me acordou.
Abri os olhos e vi-te pousar a asa por cima de mim protegendo-me.
Gostei de sentir a leveza da penugem na minha pele, fizeste-me cócegas.
Senti o afago e o carinho que me dedicas, a comunhão.
Entreguei-te as dores, as queixas, os sonhos e a minha loucura. 
Senti-me leve, solta, pluma, pena e, de repente, voei...  
Voei voltas e reviravoltas, num turbilhão de piruetas e voos picados nas tuas asas.
 Não precisamos falar. 
Comungamos a transcendência e a leveza de ser. Experiências profundas nos unem  num espaço e num tempo, que sabemos, serem nossos.
Como se o tempo e o espaço fossem um só e nós um todo. 
Pousaste-me suavemente de regresso e vi-te sorrir com o peito cheio e as asas de anjo ergueram-te no firmamento. 
Sinto que vais voltar...

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Cyclamen



Solidão.
Hoje sinto-me só. Um nó na garganta instalou-se. Os olhos facilmente escondem-se em águas profundas e turvas que escurecem o olhar.
Não quero chorar.
Olho em volta, procuro o sol...
Apetece-me sentar. Abraçar as pernas em novelo e aconchegar-me em mim, como se tentasse agarrar-me por inteiro, sem deixar de fora qualquer pedaço meu. Tento acomodar-me.
Fecho-me. Tranco-me por dentro. 
Casulo. Concha. Toca. Abrigo. Mantra. Fé.
Hoje sou só eu e só.
Hoje não entra ninguém...



terça-feira, 15 de outubro de 2013

D' Alma


Hoje atropelei-a.
 Andava a chatear-me. De manhã vi-a a espreitar ao espelho. Lá vinha ela com os seus cabelos ondulados em desalinho. Triunfal.  
Ignorei-a. Voltou a escolher-me a roupa. Deixei.
 Por vezes deixo-a tomar conta de mim, ás vezes mima-me. Diz-me exactamente o que quero ouvir. 
Sabe tão bem! 
Outras vezes irrita-me solenemente.
 Odeio-a!  
Odeio! Odeio!
Quem pensa ela que é!
 Por vezes dou com ela sentada a olhar para mim e a rir-se com aquele sorriso malandro do tipo estou a ver-te, sei o que estás a pensar. 
Mando-a embora mas volta sempre. 
Quando menos espero lá está ela a espreitar-me.
 Mas hoje atropelei-a. 
Vinha a correr para entrar no escritório e de repente voltei-me... sem dar conta esbarrou em mim. 
Caiu.
 Olhei-a sem remorso e sem pena. Deixei-a ficar ali.  
Só tive de compor o meu vestido, que por sinal até me fica bem e foi ela que escolheu.
 Durante uns dias andará zangada...

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Dandy


Surgia sempre envolto nas suas roupas cinzentas e largas. Gesticulava com veemência e defendia as ideias com firmeza. Havia temas predilectos, dos quais, fosse em que contexto fosse, sempre vinham à baila com a vivacidade que a revolta lhe trazia: a condição feminina, a escravatura, o trabalho infantil, entre outros.
 E dissertava, repetindo-se uma e outra e mais outra vez. A viagem pelo século fazia-se por caminhos variados, com desvios profundos a outras eras. 
As pinturas eram mostradas como estandartes de mudança numa civilização que teimava romper as grilhetas do passado sombrio, fechado e obscuro. 
A origem do mundo resplandecia com toda a verdade à frente dos nossos olhos.
 À primeira vez, de uma forma contida e recatada, à segunda de rompante como que se fosse aquela a sua emancipação.
 De facto houvera mudanças. As roupas, agora mais justas e de cores mais claras, confiava-lhe uma jovialidade agora retomada. 
Algo mudara em sua vida.
 Parecia mais solto, mais leve, talvez até menos taciturno. Pedia desculpa pelas repetições, mas... os temas que lhe eram favoritos, esses eram incontornáveis. 
Mas não fora só isso.
 Algo o tinha denunciado muito antes. 
Terá sido um beijo trocado inocentemente na esplanada....

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Margarida Vale de Gato


ÉMULOS

Foi como amor aquilo que fizemos
ou tacto tácito? – os dois carentes
e sem manhã sujeitos ao presente;
foi logro aceite quando nos fodemos
Foi circo ou cerco, gesto ou estilo
o acto de abraçarmos? foi candura
o termos juntos sexo com ternura
num clima de aparato e de sigilo.
Se virmos bem ninguém foi iludido
de que era a coisa em si – só o placebo
com algum excesso que acelera a líbido.

E eu, palavrosa, injusta desconcebo
o zelo de que nada fosse dito
e quanto quis tocar em estado líquido.
in Mulher ao Mar,  Mariposa Azual, 2010
Uma experiência fantástica e inédita. Adorei!