terça-feira, 8 de outubro de 2013

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Ainda a propósito da idade




Nasci noutro tempo, não do tempo da outra senhora que o era, mas num tempo onde os valores sociais tinham outra dimensão. Ás meninas convinha uma educação feminina, esmerada e prendada.
Tínhamos de aprender a sentar, a andar, a comportar-mo-nos com educação, a saber vestir-mo-nos de acordo com a ocasião e a linguagem devia ser correcta e agradecida.
O pudor era exercido sob a forma de repressão. Não era bonito mostrar ou descobri-lo. Havia que escondê-lo e tudo o que se relacionasse com sexo era velado e oprimido. Vislumbrar um corpo nu, só se fosse de um bebé ou criança pequena. A célebre frase "já és uma mulher" quando do primeiro período é um clássico de um ritual de passagem a uma fase adulta, para a qual não fazíamos a mínima ideia do que era.
Também sou daquelas que saí de casa do meu pai para a casa do marido, também minha em partes iguais, embora na altura com um esforço maior da parte dele.
 A famosa emancipação, para mim, foi nessa altura.
 Passar a ser dona do meu nariz, ter uma vida autónoma, ser corpo e sangue e viver todas as horas com o meu amor, era a maior conquista. A árvore tenra que já se aguentava sózinha no seu caule delgado, apesar de eu achar enorme. 
A árvore frutificou e cresceu profícua na sua função: engrossou o tronco, cresceu a copa...
As marcas do tempo estão  patentes no tronco desta árvore da vida, como registo das anos que passaram, com veios e sulcos, nós e cicatrizes de tempestades agrestes, que já lá vão e que servem agora de escudo a outras que surgirão no futuro.
 Contudo, há uma pequena marca, singular e brilhante que se destaca no tronco: 
um coração com as letras R e X.

   

Hoje o que eu não dava por um café...



Hoje precisava mesmo de um café. Mas não o bebi... Os deuses estavam literalmente contra. No Olimpo Zeus decidiu que eu anax não devia tomar café e puniu-me. Enviou seu relâmpago fulminante e intercedeu na minha vontade. Raios! Reclamei com o pobre guardião: ou me dá o café ou o dinheiro - desculpe isto não é um assalto. 
Eu só queria um café...Vejamos se amanhã Zeus estará mais manso. 
Prometo que se não beber café amanhã, vou chamar os meus irmãos...

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Cama


A propósito de um texto que andamos a ler e nesse contexto, esta cama seria a cama-barco. Decerto nos embalaria na corrente da água revolta, em busca de uma ilha onde aportar e descansar da viagem que fizéramos. Esta era mais sofisticada que a cama-jangada do Pacheco e com menos tripulação, não seríamos cinco mas somente um. Eu e quanto muito mais outro, para sermos um (a equação de Almada).
Seria eu e o Orpheu, em seus braços descansando os olhos e o corpo, num sono encantado, justo e reparador, ou eu e Neptuno, cavalgando na espuma das ondas agarrada ao seu tridente, com os cabelos soltos ao vento,ou ainda eu e Apolo entoando belas poesias de encantar numa melodia inventada, ou eu e Cupido rindo e dando beijos, exalando amor. Poderia ser... Mas também podia ser a cama-casulo, a cama-ninho, a cama-rochedo, a cama-abrigo, a cama-ilha (esta não me saiu bem parece uma toalha para uma mesa redonda), enfim poderia ser simplesmente cama, se é que se pode ser só uma cama (pense-se na cama de Platão e aquilo é complicado, não a cama mas o pensamento ou a ideia ou a imagem que ele tem dela -  talvez a dele não fosse confortável e lhe trouxesse uma carrada de insónias e volta para cá, volta para lá, congeminasse teorias platónicas,  como as paixões que não dão em nada, enfim, não sei).
 A minha cama é simples, quente, confortável, aconchegante, envolvente e caridosa: recebe-me sempre de braços abertos, afaga-me os cansaços e embala-me os sonhos, que me levam a outras dimensões, estrelas  e quimeras que trago nos olhos ao acordar. 
São sete horas, levanta-te - diz-me Adónis carinhosamente. 
Todas as noites dorme comigo.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Liberdade

"Não quero e não vou abdicar dele" - dizia-me ela na sua voz rouca e condoída de revolta pelo absurdo da proposta negada. Perante a incongruência dos sentimentos, da repulsa dos actos, a certeza de algo que não quer que lhe escape por entre os dedos, fá-la ter coragem para enfrentar o que , pelo menos aparentemente, até ali, lhe fora de certa forma indiferente. Mas a que propósito outros nos podem forçar a atitudes e privações, a intervir na nossa liberdade, de nos atordoar sentimentos ou impor regras que nos agrilhoam e nos ferem, de uma forma gratuita e mesquinha. Ao amor não cabe o ciúme. O gostar de alguém é aceitá-lo conforme é e respeitar a diferença, a amizade, a ternura e o carinho. È ser-se companheiro nos bons e maus momentos, é caminhar ao lado e não por ele. Tratar o outro como criança, impondo regras de conduta e de convivência é ter uma postura paternal perante outro, o que nos tempos que correm não tem sentido (nem nunca teve!). E afinal o que se trata aqui é de AMIZADE. Amigos feitos na inevitabilidade da vida e na consequência de uma escolha numa demanda que para uns tardou mas chegou e noutros na busca de algo mais. Encontros fortuitos parecem, mas que por detrás ocultam percursos, caminhos que, quem sabe, terão de ser partilhados entre eles. Pessoas que nos enchem de orgulho de serem nossas amigas e de na sua simplicidade de ser,  por serem grandes, nos  tocam a alma e nos fazem ter coragem para enfrentar o Mundo. E, se preciso for, altruísticamente assumir aquilo que não será.